Gestão ou Sobrevivência? O Que o Terremoto na Venezuela Ensina sobre a Gestão de Saúde no Brasil

Em junho de 2026, um terremoto de magnitude superior a 7.0 devastou a Venezuela, transformando instituições de saúde em cenários de guerra. Com prédios condenados e sem água, hospitais operaram em estacionamentos, improvisando vidas sobre o asfalto.
O colapso não foi apenas um efeito colateral do sismo, mas o resultado da previsibilidade ignorada. Na gestão de saúde, a crise raramente avisa quando chega, mas o impacto — seja por terremoto, enchente ou incêndio — é sempre semelhante.

Lição 1: O Colapso Oculto das Populações Vulneráveis
Em desastres, o perfil do paciente muda drasticamente. O trauma direto é apenas a ponta do iceberg; mas há um outro perigo que reside no rompimento da continuidade do cuidado para uma população bastante vulnerável como por exemplo gestantes, neonatos e doentes crônicos.
Durante a crise na Venezuela, observou-se que gestantes entraram em trabalho de parto em condições extremas e sem assistência, enquanto pacientes crônicos (diabéticos, hipertensos e cardiopatas) descompensaram rapidamente após dias sem medicação. O sistema passou a lidar, simultaneamente, com a urgência do desastre e com a cronicidade descompensada, agravada pela perda do acesso ao histórico clínico dos pacientes.
A escassez de insumos básicos, como água potável, insulina e materiais para cuidados neonatais, pode colocar recém-nascidos e idosos com múltiplas comorbidades em risco de morte por complicações que seriam evitáveis em condições normais.

Lição 2: A Falácia da “Preparação 100%”
É inviável e financeiramente proibitivo tentar se preparar para todas as catástrofes possíveis. A resiliência institucional moderna não foca em “prever o desastre”, e sim em desenvolver uma capacidade de resposta adaptativa.
A inteligência operacional permite focar em medidas de Altíssimo Benefício e Baixo Custo, priorizando processos antes de obras caras:
• Treinamento em triagem massiva para fluxos de emergência;
• Mapeamento de pacientes críticos (UTIs e Maternidade) para evacuação rápida para evitar mortes evitáveis quando a estrutura física do hospital é comprometida;
• Protocolos de comunicação unificada com redes de transferência entre instituições e familiares.
Vale a pena detalhar um pouco mais a questão da comunicação devido à sua relevância e facilidade de implementação. Desde que seja bem pensada.

Os protocolos de comunicação unificada são uma ferramenta de governança de baixo custo e altíssimo impacto, projetados para substituir o caos do improviso por um fluxo de informações estruturado durante uma crise. No contexto de um desastre, como o observado na Venezuela, a falta de informação clara pode ser tão letal quanto a falta de insumos.
Existem dois pilares fundamentais nesses protocolos:

  1. Comunicação com Redes de Transferência (Fluxo Externo)
    Em um colapso, nenhuma unidade de saúde consegue ser autossuficiente por muito tempo. A comunicação unificada estabelece:
    • Comando de Incidentes: A implementação de um plano de comando centraliza a comunicação externa, evitando que diferentes setores do hospital passem informações conflitantes para a rede de saúde.
    • Acordos de Cooperação Regional: O protocolo já deve conter os contatos diretos e os acordos formais com hospitais de referência e leitos de retaguarda. Isso permite a redistribuição estratégica de pacientes para diluir a sobrecarga e garantir que casos específicos (como neonatos ou vítimas de trauma grave) cheguem a unidades que ainda possuam recursos.
    • Logística Coordenada: Facilita o acionamento de serviços de transporte, como UTIs móveis, de forma eficiente, baseando-se na criticidade real mapeada previamente.
  2. Comunicação com Familiares (Fluxo Humano)
    O desastre gera um impacto psíquico profundo. A comunicação estruturada com as famílias visa:
    • Acolhimento e Suporte Psicológico: Protocolos específicos para informar sobre o estado de saúde, óbitos ou transferências ajudam a reduzir o dano emocional e o pânico. Isso é vital para populações sensíveis, como gestantes que enfrentam complicações ou famílias de pacientes em UTIs.
    • Transparência e Confiança: Manter os familiares informados de forma transparente reforça a confiança na instituição. Essa transparência facilita, inclusive, a mobilização voluntária e doações de itens básicos pela própria comunidade para suprir lacunas imediatas.
    • Redução da Sobrecarga da Equipe: Quando há um protocolo de comunicação definido, a equipe assistencial pode focar no atendimento clínico, enquanto uma célula específica (de assistência social ou psicologia) gerencia o fluxo de informações aos familiares.
    Por que isso é vital? Implementar esses protocolos reduz drasticamente a confusão e evita que unidades específicas fiquem indevidamente sobrecarregadas por falta de coordenação. É uma medida que exige mais tempo de organização e treinamento do que investimento financeiro direto, sendo considerada uma das ações de melhor custo-benefício para a resiliência hospitalar.

Lição 3: Sobrevivência Crítica: O Estoque de 72 Horas
Nas primeiras 72 a 120 horas de um desastre, sua instituição deve ser capaz de sobreviver de forma autônoma, sem qualquer apoio externo. Este é o “janela de isolamento” onde a gestão de recursos define a viabilidade do hospital.
A estratégia exige um estoque estratégico rotativo de insumos vitais (soros, anti-hipertensivos, luvas e antissépticos). Para garantir a infraestrutura, utilize soluções de baixo custo como filtros de água e parcerias com ONGs, além de memorandos de contingência com fornecedores para reposição prioritária.

Lição 4: Do Improviso à Gestão — O Papel da Liderança
Sob pressão extrema, sua equipe não ascenderá ao nível das suas expectativas; ela cairá ao nível dos seus protocolos. A resiliência é fruto de governança, não de heroísmo individual ou improviso de última hora.
A governança exige a implementação de simulações minimamente anuais (drills) e um plano de comando de incidentes claro. A ausência dessas ferramentas configura a omissão planejada, um risco grave que expõe o gestor a consequências legais e reputacionais irreversíveis.

Um Chamado à Resiliência Preventiva
O evento físico pode mudar, mas o estresse sobre o sistema de saúde é previsível e mitigável. A preparação estratégica não é um custo, mas um investimento em sustentabilidade institucional e segurança do paciente.
Se uma crise de grande escala acontecesse hoje, sua instituição responderia com organização ou com improviso?


Fontes: BBC Brasil CNN Brasil G1 El Nacional O Tempo O Globo